O presidente Luiz Inácio Lula da Silva elevou o tom contra Flávio e Eduardo Bolsonaro nesta quarta-feira (16), durante comício na Praça do Trabalhador, em Ceilândia, no Distrito Federal, e reforçou a defesa da soberania nacional como um dos principais eixos de seu discurso de campanha.
Ao criticar a atuação de aliados do bolsonarismo nos Estados Unidos, Lula afirmou que o Brasil não aceita “político vira-lata” e lançou uma das frases mais contundentes do ato.
“Esse país não comporta político vira-lata. Esse país não comporta político que, de dia, mostra a bandeira nacional e, de noite, vai ficar de quatro para os Estados Unidos com a bandeira americana”, declarou.
A fala veio logo depois de Lula acusar Flávio Bolsonaro (PL), seu adversário na disputa presidencial, de ter enviado o irmão aos Estados Unidos para agir contra os interesses brasileiros.
“Esse mesmo cidadão do outro lado, ele mandou o irmão dele para os Estados Unidos para tramar contra o Brasil. Está lá o Eduardo Bolsonaro, o traidor da pátria, falando mal do Brasil, pedindo para que o Trump venha fazer intervenção nesse país”, afirmou.
“Traidor da pátria”
As críticas de Lula ocorreram no mesmo dia em que Eduardo Bolsonaro se reuniu, em Washington, com integrantes do Departamento de Estado dos Estados Unidos para defender novas sanções contra ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).
Eduardo participou do encontro ao lado de Paulo Figueiredo. Os dois defenderam medidas contra Alexandre de Moraes, Flávio Dino e Gilmar Mendes, incluindo a retomada de sanções relacionadas à Lei Global Magnitsky contra Moraes.
Ao relacionar a movimentação em Washington à campanha presidencial brasileira, Lula responsabilizou diretamente Flávio Bolsonaro pela atuação do irmão.
O presidente também anunciou que pretende levar o tema ao encontro com Donald Trump durante sua viagem aos Estados Unidos para participar da Assembleia Geral das Nações Unidas.
“Vou ter um bate-papo com o Trump e dizer para o Trump: não se meta nas eleições do Brasil. O Brasil só tem um dono, que é o povo brasileiro”, disse Lula. A Assembleia Geral da ONU está marcada para terça-feira, 22 de setembro.
Soberania também passa por tecnologia e minerais
Lula conectou as críticas à atuação bolsonarista nos Estados Unidos a um discurso mais amplo sobre soberania econômica e tecnológica.
Ao falar sobre educação, defendeu que universidades e institutos federais preparem os jovens para as transformações tecnológicas.
“As nossas universidades vão ter que se preparar, os nossos institutos vão ter que se preparar… A juventude vai ter que aprender a trabalhar com inteligência artificial, para a gente não ficar dependendo nem de chinês, nem de americano”, afirmou.
O presidente também voltou a defender que o Brasil deixe de atuar apenas como exportador de matérias-primas e passe a agregar valor aos recursos minerais dentro do próprio país.
Horas antes do comício, Lula havia sancionado a lei que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, voltada à pesquisa, exploração, beneficiamento e transformação desses recursos em território brasileiro. A legislação também cria mecanismos de financiamento e incentivos à industrialização da cadeia mineral.
“A gente não quer ser mais exportador de commodities, quer ser exportador de inteligência e conhecimento”, afirmou Lula durante a agenda no Distrito Federal.
Lula ataca gestão do BRB
O presidente também usou o comício para atacar a governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP), e o ex-governador Ibaneis Rocha (MDB) em meio à crise do Banco de Brasília (BRB).
“A governadora, de forma cínica e mentirosa, tenta jogar a responsabilidade no governo federal. Quem quebrou o BRB foi a ligação entre o Ibaneis e o Vorcaro, do Banco Master. O BRB comprou títulos que não existiam, R$ 12 bilhões”, declarou Lula.
Investigações da Polícia Federal apontam que o BRB adquiriu cerca de R$ 17 bilhões em carteiras de crédito do Banco Master, dos quais aproximadamente R$ 12,2 bilhões estariam relacionados a títulos considerados fraudulentos pelos investigadores.
Lula também afirmou que o governo federal não pretende destinar recursos para socorrer a instituição.
“Nós não vamos deixar o povo sem dinheiro, mas não vamos dar dinheiro para o BRB”, disse.
Pressão de Washington sobre o Brasil
O discurso ocorreu ainda em meio a uma nova manifestação do governo Trump sobre o combate ao crime organizado no Brasil.
Em documento anual enviado ao Congresso dos Estados Unidos, a Casa Branca afirmou que o governo brasileiro “falhou em confrontar” o PCC e o Comando Vermelho e cobrou medidas mais duras contra as duas facções. O Brasil, entretanto, não foi incluído nas listas formais de países considerados grandes produtores ou rotas de drogas nem entre aqueles classificados pelo governo americano como tendo “falhado de forma demonstrável” no combate ao narcotráfico.
PCC e Comando Vermelho já haviam sido classificados pelo governo Trump, em maio, como “terroristas globais especialmente designados”, decisão à qual o governo Lula se opôs.
Lula sobe o tom contra Flávio e Eduardo Bolsonaro: “De noite vai ficar de quatro para os EUA”
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