A crise envolvendo Nossa Senhora Aparecida trouxe ao centro da política brasileira uma tensão antiga entre católicos e setores evangélicos. Nos Estados Unidos, uma aliança semelhante, construída durante décadas em torno de pautas conservadoras, já atravessa uma ruptura importante.
Em reportagem publicada em abril deste ano, a jornalista Kiera Butler, da Mother Jones, mostra que a guerra dos Estados Unidos contra o Irã se tornou um dos principais pontos de atrito entre católicos e evangélicos alinhados ao presidente Donald Trump.
O conflito ganhou força depois que o papa Leão XIV passou a condenar a escalada militar. Enquanto Trump exaltava a ofensiva contra o Irã, o pontífice alertava para o sofrimento de civis e defendia uma saída baseada no diálogo. Lideranças importantes da Igreja Católica acompanharam o posicionamento do Vaticano.
Segundo a Mother Jones, a divergência expôs um problema que vinha sendo abafado pela política. Católicos e evangélicos conservadores formaram uma coalizão no fim dos anos 1970, inicialmente impulsionada pela oposição ao aborto. A parceria se aprofundou posteriormente nas campanhas contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo e outras pautas de costumes.
A unidade, porém, nunca significou concordância religiosa.
Diferenças sobre Israel se tornaram especialmente explosivas. Muitos evangélicos conservadores estadunidenses adotam o sionismo cristão, segundo o qual a existência e a vitória política do Estado de Israel têm papel central nas profecias sobre a segunda vinda de Cristo. A doutrina católica não adota essa interpretação literal.
A guerra no Irã aprofundou esse afastamento. Católicos que tradicionalmente integravam a direita trumpista passaram a apoiar críticas do papa à ofensiva militar. Para analistas ouvidos pela revista, o episódio fez reaparecer diferenças que a convergência eleitoral havia conseguido esconder durante décadas.
O conflito saiu do campo diplomático e atingiu a própria identidade religiosa. Influenciadores católicos passaram a acusar figuras evangélicas próximas de Trump de heresia e blasfêmia. Do outro lado, setores protestantes retomaram críticas históricas ao catolicismo, à veneração dos santos e à autoridade de Roma.
A tensão ficou evidente também após declarações da pastora Paula White-Cain, conselheira espiritual de Trump. Em um almoço de Páscoa na Casa Branca, ela comparou episódios enfrentados pelo presidente à trajetória de Jesus. Católicos conservadores reagiram publicamente e classificaram a fala como blasfêmia.
Outro episódio citado pela Mother Jones envolveu o cardeal Pierbattista Pizzaballa, impedido pela polícia israelense de entrar na Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém, no Domingo de Ramos. O caso alimentou críticas de católicos conservadores tanto ao governo israelense quanto a evangélicos estadunidenses fortemente ligados ao sionismo cristão.
A reportagem ressalta que essas vozes não representam o conjunto dos 1,4 bilhão de católicos do mundo, grupo marcado por enorme diversidade política e ideológica. Ainda assim, especialistas ouvidos pela publicação consideram que a fissura ultrapassa as disputas entre influenciadores da extrema direita.
O ponto central é político. Uma aliança que funcionou durante décadas porque católicos e evangélicos compartilhavam inimigos e agendas comuns começa a enfrentar o limite imposto por suas próprias diferenças religiosas.
Como resumiu à Mother Jones o historiador Robert Orsi, da Universidade Northwestern, tratou-se desde o início de uma aliança frágil, formada pela política e não pela religião.
Leia a matéria na íntegra.
Por que católicos e evangélicos estão em guerra nos EUA após Trump
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