Edir Macedo se afasta do bolsonarismo e condena lema “Deus, pátria e família”

Edir Macedo se afasta do bolsonarismo e condena lema “Deus, pátria e família”
- Edir Macedo, o dono da IURD - Foto: Danilo Verpa/Folhapress

O cenário político e religioso no Brasil passa por uma profunda reconfiguração institucional poucos dias após o segundo turna da eleição presidencial que deu um quatro mandato a Lula (PT). Num gesto carregado de simbolismo estratégico, o bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) e um dos líderes religiosos mais influentes do país, externou publicamente sua desautorização ao célebre bordão “Deus, pátria e família”. A máxima, de raízes histórico-fascistas e resgatada como pilar doutrinário pelo bolsonarismo, sofreu uma dura contestação no próprio altar da denominação.
Durante pregação realizada no púlpito da Universal no dia do próprio segundo turno, Macedo questionou abertamente a ordem dos fatores contida no lema propagado pela família Bolsonaro. Para o bispo, colocar o conceito de Estado ou nação acima do núcleo familiar deturpa os preceitos bíblicos fundamentais.
“Eu não aprovo aquela teoria “Deus, pátria e família”. Primeiro Deus, segundo a família, e terceiro o Estado, ou o que mais queira ser. Na Igreja Universal do Reino de Deus nós priorizamos essa hierarquia: primeiro Deus. Assim foi com Abraão, assim foi com Isaac, assim foi com quem seguiu esse padrão: Deus, família, e então, o resto”, declarou Macedo perante os fiéis, possivelmente já tendo percebido que Flávio Bolsonaro (PL) sairia derrotado no pleito.
A oratória seguiu com uma provocação direta à lógica nacionalista e bélica da extrema direita bolsonarista:
“Se não houver família, vai haver pátria? Impossível! Só vai haver pátria quando vier da família, que vem de Deus. Primeiro Deus, aí a família e todas as demais coisas”, concluiu.
Embora o pronunciamento busque um enquadramento doutrinário, observadores da cena política nacional enxergam no movimento o ápice de um pragmático reposicionamento de forças. A fala sinaliza uma ruptura formal com um projeto político que dá fortes sinais de exaustão e fragmentação no país.
Esfacelamento do clã e o crepúsculo da liderança radical
O distanciamento de Macedo ocorre em um momento de acentuada ruína política da família Bolsonaro. A derrocada do clã, marcada por desdobramentos judiciais severos que culminaram com a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e pela debandada de lideranças que optaram por abandonar o país diante do avanço das investigações, desidratou a capacidade do grupo de articular alianças pragmáticas no campo evangélico e no Congresso Nacional, em que pese o fato de o PL ter as maiores bancadas da Câmara e do Senado.
A tentativa do senador Flávio Bolsonaro de se consolidar como o herdeiro político direto da facção radical encontrou barreiras intransponíveis. Ao longo dos últimos anos, o setor evangélico tradicional percebeu que o engajamento incondicional com a pauta ideológica do clã não garantia a proteção de pautas institucionais nem revertia em dividendos eleitorais seguros.
O resultado das urnas confirmou esse desgaste. A estratégia da Igreja Universal de adotar uma postura de “neutralidade” na disputa presidencial, enquanto focava na eleição de uma bancada própria no Legislativo para construir “muros” defensivos, temendo pautas como a tributação de templos, não surtiu o efeito desejado. O eleitorado conservador evangélico, outrora canalizado pelas orientações dos grandes bispos, acabou pulverizado por candidaturas alinhadas ao bolsonarismo ideológico estrito, muitas vezes em detrimento dos nomes indicados pela própria hierarquia eclesiástica.
O desastre das bancadas partidárias ligadas à Universal refletiu esse fenômeno. Em São Paulo, figuras centrais do Republicanos viram suas votações minguarem sensivelmente ou amargaram a não reeleição. No Rio de Janeiro, o fracasso de Marcelo Crivella na disputa ao Senado escancarou a ruptura de um padrão histórico: o eleitorado religioso preferiu apoiar nomes radicais do PL, atuantes nas redes sociais, a votar nas lideranças tradicionais chancela das pelas igrejas.
Reconfiguração da direita e o cálculo de Tarcísio
Diante do desmascaramento do projeto extremista e do isolamento jurídico de seus principais mentores, o tabuleiro conservador acelera a busca por alternativas de poder funcionais e desvinculadas da retórica do “tudo ou nada”. O movimento de afastar-se da figura de Jair e Flávio Bolsonaro já não é exclusividade dos líderes religiosos, mas de governantes e quadros da alta política que vislumbram o futuro eleitoral sem a tutela da família radical.
O caso emblemático dessa transição é o do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Integrante do mesmo partido articulado à Igreja Universal, Tarcísio tem moldado uma atuação focada em gestão, privatizações e articulação direta com os poderes constituídos, distanciando-se gradativamente dos arroubos golpistas e da pauta de costumes radicalizada do bolsonarismo de raiz.
Para atores experientes do Centrão e do universo evangélico corporativo, a sobrevivência política e a preservação do poder exigem a superação da dependência em relação a lideranças tuteladas pela Justiça ou em fuga. A reprovação de Edir Macedo ao lema “Deus, pátria e família” funciona, portanto, como uma senha institucional: o grande capital religioso e as forças conservadoras tradicionais iniciaram formalmente a desembarque do bolsonarismo, redesenhando as fronteiras da direita brasileira para o próximo ciclo político.

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