Os 1.596.472 votos recebidos por Erika Hilton (PSOL) nas eleições de 2026 poderia ter ajudado a eleger outros três deputados federais em São Paulo. No entanto, a federação PSOL-Rede não conseguiu preencher todas as vagas correspondentes à sua votação porque parte de seus candidatos não atingiu o desempenho individual mínimo exigido pela legislação eleitoral.
Uma simulação realizada pelo Radar do Voto, utilizando os resultados das eleições de 2026, mostra que a formação de uma federação única entre PSOL, Rede, PT, PCdoB e PV teria modificado a distribuição de dez mandatos no país — cinco de deputados federais e cinco de deputados estaduais.
Quase 1,6 milhão de votos e menos três cadeiras
Em São Paulo, a federação PSOL-Rede recebeu aproximadamente 3,06 milhões de votos para deputado federal, o equivalente a nove quocientes eleitorais. Entretanto, elegeu apenas seis representantes. O problema esteve na distribuição dos votos entre os candidatos.
Além de Erika Hilton, que alcançou a terceira maior votação individual para deputado federal do país, Sâmia Bomfim recebeu 583.107 votos, Guilherme Cortez conquistou 275.450, Professora Luciene Cavalcante obteve 253.778, Natália Boulos somou 114.552 e Sônia Guajajara recebeu 54.207 votos.
Depois deles, nenhum candidato da federação atingiu os 33.821 votos necessários para preencher uma vaga pelo quociente partidário em São Paulo. Raul Marcelo, com 30.119 votos, e Juliano Medeiros, com 25.908, ficaram abaixo do limite.
Segundo dados eleitorais divulgados pelo TSE, o quociente eleitoral paulista foi de 338.203 votos. A legislação estabelece uma votação nominal mínima de 10% desse número para o preenchimento das vagas pelo quociente partidário.
Assim, mesmo com votos suficientes para alcançar aproximadamente nove cadeiras, a federação PSOL-Rede só tinha seis candidatos que atendiam à exigência.
Federação com PT mudaria resultado
A simulação do Radar do Voto mostra que o cenário seria diferente caso PSOL e Rede tivessem formado uma federação com PT, PCdoB e PV. Somados os votos das duas federações, a nova composição teria candidatos suficientes para aproveitar melhor a votação recebida nas urnas.
Em São Paulo, três nomes do PT — Rui Falcão, Paulo Teixeira e Paulo Batista dos Reis — seriam beneficiados pela redistribuição das vagas. O resultado, entretanto, também teria um efeito contrário dentro do próprio PSOL: Sônia Guajajara perderia a cadeira conquistada nas urnas, segundo a simulação.
Isso acontece porque, em uma federação partidária, os votos são contabilizados conjuntamente para a distribuição das cadeiras, mas os mandatos são ocupados conforme a votação individual dos candidatos, independentemente da legenda à qual pertençam dentro da federação.
Renato Roseno e Tarcísio Motta seriam eleitos
Os efeitos não ficariam restritos a São Paulo. Segundo o levantamento, Renato Roseno, do PSOL do Ceará, conquistaria uma cadeira na Câmara dos Deputados caso a federação ampliada tivesse disputado as eleições de 2026.
No Rio de Janeiro, Tarcísio Motta, também do PSOL, seria outro beneficiado pela mudança na distribuição dos votos.
Na disputa pelas Assembleias Legislativas, a simulação aponta que a Professora Ângela, do PSOL do Paraná, conquistaria um mandato estadual.
Ao todo, o levantamento identifica dez mudanças favoráveis à federação hipotética: cinco cadeiras federais e cinco estaduais. Entretanto, apenas três dessas vagas adicionais seriam ocupadas por candidatos do PSOL. As demais ficariam com nomes do PT e do PCdoB.
Na Assembleia Legislativa de São Paulo, a composição também mudaria. Keit Lima, do PSOL, perderia o mandato, enquanto Beth Sahão, do PT, passaria a integrar a Casa.
A redistribuição de cadeiras atingiria partidos de diferentes campos políticos. Segundo o Radar do Voto, PSD, MDB, Republicanos, União Brasil, PL e PSB estariam entre as legendas que perderiam representação parlamentar no cenário simulado.
Entenda a regra
O sistema proporcional brasileiro utiliza dois cálculos principais para a distribuição inicial das cadeiras: o quociente eleitoral e o quociente partidário.
O primeiro é obtido pela divisão do total de votos válidos pelo número de vagas em disputa. O segundo considera os votos recebidos pelo partido ou federação, divididos pelo quociente eleitoral.
Mas existe uma exigência adicional: para ocupar uma vaga conquistada pelo quociente partidário, o candidato precisa alcançar individualmente pelo menos 10% do quociente eleitoral.
As vagas que não podem ser preenchidas nessa etapa entram na distribuição das chamadas sobras eleitorais, submetidas a critérios específicos previstos na legislação e nas decisões do Supremo Tribunal Federal.
É justamente essa combinação de regras que explica por que a votação expressiva de Erika Hilton não se transformou automaticamente em mais três mandatos para o PSOL em São Paulo.
O caso também evidencia o peso das decisões sobre alianças partidárias. Ao reunir votos e candidaturas em uma mesma lista, uma federação pode ampliar o aproveitamento eleitoral de seus integrantes, mas também modificar profundamente quais partidos e candidatos acabam conquistando as cadeiras.
PSOL: votos de Erika Hilton elegeriam mais 3 e federação com PT ampliaria bancada progressista na Câmara
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